domingo, 23 de agosto de 2009

Após pré-sal, Vale é "alvo" de ação de Lula

KENNEDY ALENCAR
Colunista da Folha Online

Ao anunciar a sua proposta de nova Lei do Petróleo no final do mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva oficializará uma inflexão no papel do Estado brasileiro: o governo passará a ter maior ação na economia.

Nos seis anos e oito meses de governo, Lula aumentou a influência do Palácio do Planalto sobre a Petrobras. Concluída a proposta de novo marco regulatório para o petróleo, Lula deverá aumentar a pressão sobre a Companhia Vale do Rio Doce.

A Petrobras é uma estatal de capital misto na qual o governo tem a maioria das ações com direito a voto. O governo indica o seu presidente. No entanto, do capital total, 60% estão em mãos privadas.

A Vale, a maior empresa brasileira depois da Petrobras, é uma companhia de capital misto também, mas um pouco diferente. O governo não interfere diretamente na gestão da Vale como faz na Petrobras, mas tem feito pressões para influenciar os rumos da administração da empresa.

Do capital com direito a voto, a Valepar tem 53% das ações da Vale. Na Valepar, um consórcio de fundos de pensão detém 49% das ações. O BNDESPar tem 11,5%. O Bradesco, 21%. E o Mitsui, 18%.

Ou seja, o Bradesco comanda a empresa por meio de um acordo de acionistas. O banco indicou Roger Agnelli para presidir a Vale. Mas uma eventual aliança entre a Previ e o BNDESpar, que é o braço do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), para participar de empresas, poderia indicar um novo presidente. O governo tem enorme influência sobre os fundos de pensão das estatais.

Nos bastidores, o governo Lula ameaçou interferir no comando administrativo da Vale a fim de levar a empresa a fazer investimentos considerados estratégicos pelo Planalto --sobretudo na área de siderurgia. Lula mandou um recado ao Bradesco. Insatisfeito com a ação da Vale durante a fase mais aguda da crise global, o presidente deseja que a companhia ouça mais o governo.

Agnelli e o Bradesco não gostam da revelação pública da pressão de Lula, mas ela existe e tem sido sentida pelo executivo e pelo banco. Em conversa reservada recentemente, Agnelli procurou selar a paz com Lula, sendo bastante cordato ao usar as palavras a fim de explicar ao presidente decisões da empresa.

Lula considera que a Vale "amarelou" no começo da crise, cortando investimentos e demitindo trabalhadores numa hora em que o governo, que sempre atendera aos pedidos da empresa, insistia na manutenção de expectativas positivas. A Vale frustrou parte desse plano, levando outras empresas a adotar o mesmo caminho, dizem auxiliares do presidente.

Na visão do governo, a Vale e os bancos privados erraram. A lucratividade do Banco do Brasil, a diminuição do desemprego e o aumento da renda evidenciariam um pessimismo desnecessário do setor privado brasileiro.

Ora, se as empresas gostam de recorrer ao Estado para tomar recursos públicos ou se aliar a fundos de pensão que sofrem influência do governo, deveriam tratar como normal algum nível de intervenção estatal. Pegar dinheiro público e tratar como se fosse privado é fácil. É capitalismo sem risco.

Nesse sentido, Lula está certo ao pressionar a Vale e ao recuperar a influência política sobre as ações estratégicas da Petrobras. O presidente avalia que as ações dos governos na crise global reforçaram seus argumentos. E ele pegou gosto pela coisa.

As grandes empresas privadas que têm o governo como sócio serão mais pressionadas por Lula daqui em diante.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Lina, Lina...

Ao menos na clássica cultura política ocidental, o ônus da prova cabe em regra aos acusadores. No episódio envolvendo a ministra Dilma Roussef com a ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, a conclusão quanto a isso é óbvia: Lina, a acusadora, é quem de fato deveria suportar toda a responsabilidade de densificar suas afirmações através da demonstração de um lastro probatório que a elas conferisse um mínimo verossimilhança. A Dilma, naturalmente, cabe a defesa e refutação das afirmações de Lina, fechando desta forma o natural ciclo do contraditório e da ampla defesa, pilar de qualquer Estado Democrático de Direito. A mídia, entretanto, vem previsivelmente jogando esse fardo ilegítimo nas costas de Dilma, a acusada, subvertendo toda a ordem do devido processo legal não apenas ao inverter o ônus da prova, mas também ao fazer um antecipado juízo de valor em relação à ministra por ilações da ex-secretária que possuem alicerces extremamente questionáveis.

Primeiramente, Lina disse que a ministra tentou por fim às investigações contra Sarney usando o termo "agilizar"; não tardou para a ex-secretária mudar de discurso e dizer que entendeu a expressão como uma agilização em sentido literal, vez que essa requisição já havia sido feita pelo Judiciário. Eis a primeira incongruência.

Logo depois, não buscou fundamentar a sua tese em fatos, mas sim em sua vaidade ("minha biografia não tem mentira"), exatamente pela ausência de pressupostos fáticos que corroborassem com sua tese. Limitar-se a afirmar que nunca mentiu é o mesmo que nada perante qualquer órgão inquisidor ou jurisdicional. Se não há a possibilidade de provar com fatos, não há prova. Simples.

Ora, a ex-secretária também não marcou a reunião em sua agenda, o que seria a prova cabal, categórica, insofismável e objetiva da existência do encontro.

Aliás, inicialmente disse que havia marcado o encontro, mas como as suas coisas estavam empacotadas em virtude de sua viagem de volta a Natal, não teria acesso à agenda.

Eis que surge a segunda guinada no discurso de Lina: o agendamento - que antes não era possível consultar em virtude do empacotamento de seus pertences - já não existe mais. 2ª incongruência.

O que poderia ser feito então? Consultar as imagens da rede interna de câmeras do Ministério da Casa Civil. Para isso, bastava Lina dizer ao menos o mês em que ocorreu a suposta reunião com a ministra.

Mas o que alegou a ex-secretária? Que não se lembra não apenas do dia, mas também do mês em que a reunião aconteceu; da vestimenta da ministra e do cafezinho que lhe fora supostamente servido, observações de relevância nula em sede investigativa, a ex-secretária lembra, mas do mês da reunião, que é o que realmente interessaria para fins de averiguação, Lina não faz a mínima ideia.

3ª incongruência.

Não obstante, Dilma é quem está sendo demonizada pela mídia, em uma aberrante inversão de papéis quanto à responsabilidade de provar o acontecido. É assim que funcionam as coisas no Brasil, consolidando a cada dia a ideia de que a melhor saída ainda é o aeroporto.

sábado, 15 de agosto de 2009

A volta das pesquisas

Do Nassif:

A volta das pesquisas

Por Roberto São Paulo/SP

Serra lidera com 37%, Dilma e Ciro empatam, diz Datafolha

15/08/2009 - 16h54, da Folha Online

Pesquisa Datafolha que será publicada neste domingo (16) pela Folha indica que o governador José Serra (PSDB-SP) está na frente na preferência dos eleitores na sucessão presidencial em 2010.

O jornal já está nas bancas da Grande São Paulo.

Serra tem 37% das intenções de voto. Em segundo lugar, estão empatados a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) com 16% e o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) com 15%.

Heloísa Helena (PSOL) tem 12% e está em quarto lugar. A senadora Marina Silva (PT-AC) tem 3% das intenções de voto.

A pesquisa ouviu 4.100 entrevistados entre os dias 11 e 13 de agosto, em 171 municípios. A margem de erro é de 2% para mais ou para menos.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u610260.shtml

Comentário

Para entender a volta das pesquisas:

1. Superexposição de José Serra na mídia, especialmente no Jornal Nacional. Dia desses chegaram a dar 3 minutos para uma senhora, nem um mínimo de appeal televiso, falar sobre a … defensoria pública em São Paulo, com direito a fornecer o telefone para todo o Brasil.

2. Todo o carnaval em cima da lei antifumo.

3. Todo o carnaval em cima do imbróiglio Sarney, associando-o a Lula e a Dilma.

4. O factóide da ex-Secretaria da Receita.

Em cima disso, tome pesquisa e garanta a sobrevida da candidatura Serra.

Pergunto: é uma interferência indevida na vida democrática do país ou não?

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

domingo, 2 de agosto de 2009

Obama: "We want stronger ties with Brazil."

(Link original AQUI.)

President Barack Obama said he wants stronger ties with Brazil, especially in the commercial area, a top aide and possible successor to Brazilian President Luiz Inacio Lula da Silva said.

"He made what I consider a very strong and important statement," Lula's chief of staff Dilma Rousseff, speaking through a translator, said at the end of the US-Brazil CEO Forum, which brings together top US business and top government officials from each country.

Rousseff, who is Lula's preferred candidate in Brazil's 2010 presidential election, said Obama dropped in on her and other forum participants during a meeting in the office of White House national security adviser Jim Jones.

The forum consists of 10 business leaders each from the United States and Brazil, who meet at least once every six months to make recommendations to the two governments on how to expand trade and investment ties.

Tim Solso, president of Cummins Inc and the US co-chairman of the forum, said the participants urged the two countries to begin talks on a Trade and Investment Framework Agreement as a stepping stone to a broader trade pact.

White House deputy national security adviser Michael Froman said the two governments would explore that possibility, but had not made any decision yet.

Brazil's Minister of Development, Industry and Foreign Trade Miguel Jorge also also participated in the forum, along with US Commerce Secretary Gary Locke.

The two sides discussed progress on bilateral tax and investment treaties, as well as ways the two countries could cooperate on developing renewable energy source and addressing global climate change, officials said.

The CEOs recommended the United States eliminate its tariff on ethanol imports, a move that would benefit Brazil but face strong opposition from U.S. corn growers and their proponents in Congress, such as Senator Charles Grassley.

The government and business leaders called for conclusion of the long-running Doha round of world trade talks.

Froman denied the United States was dragging its feet in those negotiations, as some diplomats at World Trade Organization headquarters in Geneva have complained.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Marcos Boulos: A gripe suína mata tanto quando a gripe sazonal, que vem em todo inverno.

Do blog CONVERSA AFIADA.
Link para a entrevista AQUI.

Resumo da entrevista:

Das doenças infecciosas, a gripe suína é uma das menos graves.

Ela mata tanto quando a gripe sazonal, que vem em todo inverno.

Dos que pegam gripe suína, 0,1% morre.

Uma pessoa em mil que entre os que pegam a gripe.

O sarampo mata 40 vezes mais.

A meningite, 200 vezes mais.

Essa gripe vai durar mais um mês, um mês e meio – como toda gripe, ela vem no inverno.

E a imunização através da vacina estará pronta em três, quatro meses.

Quando a mídia só chama a atenção para as mortes, para os fatores negativos da doença, isso é alarmismo.

É necessário noticiar, uma obrigação da mídia contribuir para que as pessoas conheçam a doença e a maneira de enfrentá-la.

A novidade dessa gripe em relação à gripe sazonal é que essa gripe suína compromete pessoas saudáveis.

Enquanto a gripe sazonal costuma pegar em criancinhas – cujo sistema imunológico ainda não está formado – e em adultos da terceira idade.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

The Economist: Brazil's Petrobras - Oil and revolution

Leia abaixo o texto traduzido.

Se preferir a versão original, vá direto ao site do The Economist clicando AQUI.

Petróleo e revolução

A Petrobras possui vastas reservas de petróleo, influência comercial e excelentes conexões chinesas. Mas enfrenta incerteza política

Conforme os chefes das principais petrolíferas mundiais caminham, José Sergio Gabrielli sobressai-se, extraordinariamente. O presidente da Petrobras – gigante brasileira do setor de petróleo e gás, parte privada e parte pública – Gabrielli assumiu uma posição de esquerda na política aos 15 anos de idade. Depois de passar seis meses na prisão sob uma ditadura militar, mudou para o campo menos polêmico da macroeconomia, obtendo o doutorado pela Boston University e o posto de professor em uma universidade brasileira (da qual está licenciado). Voltando à política de esquerda na década de 1980, procurou trabalhar para o Partido dos Trabalhadores (PT), do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entretanto, desde 2005, dirige a mais ambiciosa petrolífera do mundo. A Petrobras é a principal produtora do maior campo petrolífero descoberto neste século, nas profundezas do oceano Atlântico.

Conexões políticas são essenciais para a Petrobras. Embora 60% das suas ações sejam negociáveis, o governo federal ainda é o seu acionista controlador. Seu conselho é presidido pela ministra-chefe da Casa Civil do governo Lula, Dilma Rousseff. Mas a política também pode levar a empresa a apuros. O Congresso brasileiro criou recentemente uma comissão para investigar a Petrobras, em resposta às alegações de contratos superfaturados e motivações políticas nas atividades beneficentes da empresa.

Esta semana, o jornal O Globo deu uma amostra do que está por vir, com uma história revelando que um fornecedor da Petrobras havia dado, como seu endereço, uma casa abandonada ocupada por 60 cães e 300 gatos.

O Gabrielli considera a investigação positiva porque é uma chance de o público realizar um escrutínio sobre a principal companhia brasileira, mas teme que ela se torne um circo político, como acontece normalmente com essas comissões parlamentares do Congresso. A Petrobras já forneceu 10 mil páginas de provas para refutar a alegação de superfaturamento na construção de uma nova refinaria. Haverá muitas outras acusações como essas, e elas devem criar uma provável impressão de infração, mesmo se nada for realmente comprovado. O mesmo vale para o extenso orçamento beneficente para ajudar a preservar tartarugas e a subsidiar filmes, por exemplo. Isso é administrado de forma mais profissional do que no passado, mas a Petrobras ainda é vulnerável a acusações de favoritismo político.

Embora o inquérito possa causar alguns danos na reputação da Petrobras, estes provavelmente serão leves. A comissão tem a maioria da base aliada do governo. Seus membros incluem Fernando Collor, um ex-presidente que renunciou em 1992 enquanto enfrentava um processo de impeachment por corrupção, e Marcelo Crivella, um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, um Pentecostal uniforme. Eles vão se juntar ao espetáculo.

A segunda incerteza enfrentada pela Petrobras diz respeito a um novo marco legal que irá reger a exploração do petróleo pré-sal (os novos campos se encontram sob uma camada de sal abaixo do leito marinho). Uma comissão criada pelo governo para este estudo deve apresentar um relatório em breve. Prevê-se propor a aquisição de todos os direitos não atribuídos na área do pré-sal (62% do total) a uma nova empresa inteiramente de propriedade estatal, que seria parceira da Petrobras ou qualquer outra empresa que assine contratos exploração.

Diferentes alas do governo defendem que as receitas provenientes dessas parcerias sejam usadas para finalidades específicas, para a educação ou infra-estrutura, enquanto outros querem que as verbas sigam para os cofres federais. Um risco para o Brasil é que essa nova companhia se torne uma fonte de lucros sem uma real função, exceto satisfazer a avareza dos políticos. O maior perigo para a Petrobras é a possibilidade de a nova companhia vir a se tornar uma rival comercial.

A Petrobras está avançando com um ambicioso plano de investir US$ 174 bilhões nos próximos cinco anos. Críticos questionam o quanto deste plano será concretizado. Mas o senhor Gabrielli diz que mesmo que o preço do petróleo caia para não mais que US$ 45 dólares o barril, os US$30 bilhões levantados pela empresa este ano serão suficientes para financiar os planos da estatal para os próximos dois anos. Se o preço do petróleo estiver a US$ 65 dólares o barril (onde situava-se esta semana), a empresa poderá financiar os planos para os próximos cinco anos. Além de desenvolver os novos campos, ela pretende construir cinco novas refinarias, para gerar mais eletricidade e para construir uma rede de gasodutos no Brasil.

A Petrobras levantou US$ 10 bilhões do governo chinês no início deste ano, em troca da promessa feita à Sinopec, uma petrolífera estatal, de um fornecimento garantido de até 200 mil barris de petróleo por dia durante dez anos. Gabrielli quer mais acordos como esse. Além dos campos do pré-sal, a Petrobras está explorando 270 blocos no Golfo do México e mais de 200 outros em terra (onshore) no Brasil. Ele pode recorrer à China para financiá-los também. Os chineses, sorri ironicamente Gabrielli, “preferem fazer acordos à enviar o seu exército para garantir os fornecimentos, como os americanos.” O senhor do petróleo ainda ostenta um vestígio do agitador de 15 anos atrás.